A família O'delere já havia se acostumado àquilo, até gostavam do frio.
Dentro da casa, Melissa O'delere permanecia sentada diante de uma escrivaninha de madeira escura. À sua frente, repousavam diversas folhas pautadas, algumas preenchidas com anotações musicais meticulosamente organizadas. A menina segurava um lápis entre os dedos, analisando atentamente os últimos compassos de sua composição.
No alto da primeira página, em letras delicadas, estava escrito: O Trevo e as Três Rosas.
A garota acrescentou uma última nota, desenhou uma pequena barra dupla e afastou o lápis do papel.
Ela olhou para o relógio: 9:32 p.m.
No quarto ao lado, Lily O'delere também terminara suas atividades. Seus cadernos escolares estavam abertos sobre a mesa, cheios de cálculos e equações.
Ela também olhou para o relógio: 9:32 p.m.
Naquele mesmo instante, ouviram-se passos no corredor, seguido pelo ruído de uma chave girando na fechadura.
— Chegamos, crianças — disse Christian O'delere, o pai da família.
Melissa foi a primeira a chegar aos pais.
— Oi, irmã - disse Ester, sua irmã mais nova.
— Oi.
— O que disse?
— Ela te cumprimentou — disse a mãe, Sabrina, falando no ouvido dela.
— Ela me cumprimentou?
A mãe assentiu com a cabeça.
— Oi, pai. Oi mãe. Oi Ester. Onde foram? — perguntou Lily, saindo do quarto.
— Fomos no médico. Para tentar saber o que está acontecendo com Ester...
Christian concordou e colocou seu chapéu no coat rack ao lado da porta.
— Então, sentem-se perto do piano, por favor. Tocarei uma melodia — desviou.
Christian e Sabrina se olharam e riram, concordando.
— Vou brincar lá fora. Não curto piano — disse Lily, saindo da casa.
Todos sentaram atrás de Melissa, que estava sentada no banquinho à frente do instrumento.
— Está música se chama O Trevo e as Três Rosas.
Os vizinhos mais próximos eram os Walkers, que moravam a quase cinco quilômetros da residência dos O'delere. Esse caminho até a família Walker era cercado de árvores sem folhas, pedras e neve. A casa de Christian era cercada por uma floresta, que, à primeira vista, parecia morta.
— "Olá senhora pedra, sou Oswald Rock, a pedra. Gostaria de dançar?" — brincou Lily, com duas pedras gélidas que encontrara no chão.
A menina fez um boneco de neve e deixou a "senhora pedra" e o "Oswald Rock" em cima da cabeça do boneco.
— "Oh, não! Tem duas pedras dançando em minha cabeça! Ajudem-me! Ajudem-me!"
Melissa pigarreou e tocou a primeira tecla, lentamente.
Um floco de neve caiu sobre Oswald. Lily pegou o floco e o esmagou com o polegar e o indicador. Sentiu o dedo ficar meio quente.
— É o atrito — supôs.
Melissa olhou para trás, ainda tocando as teclas do instrumento musical.
— Esta música foi criada na era medieval!
— Como sabe?
— Eu vi em um livro!
As notas eram delicadas e se misturavam harmoniosamente, alternando sons agudos e graves. A melodia adquiria uma qualidade hipnótica, quase celestial. Era como se um anjo pressionasse delicadamente cada tecla.
Lily se jogou naquela neve e sentiu seu corpo esquentar um pouco. Ela pegou um punhado e sentiu claramente: era morno. Como a jarra de leite quentinho no café da manhã. Ela o largou, por puro instinto. Ela tentou voltar para sua casa, mas seus pés prenderam-se ao chão, como se uma mão firme segurasse seu tornozelo.
— O quê?!
Ela olhou pela janela: sua irmã a encarava, sorrindo maliciosamente, enquanto tocava o piano aveludadamente.
— Irmã! Me ajude! Me ajude!
Melissa tocou mais rápido, e o que eram apenas flocos soltos planando no ar, tornou-se uma nevasca forte.
— AJUDA!!!
Uma partícula caiu em seu olho esquerdo. Uma dor pulsante cobriu seu corpo, como um calafrio angustiante. Ela tentou abrir seu olho novamente, em vão. Parecia que a pálpebra tinha grudado na córnea.
— POR FAVOR ME AJUDE!!! — berrou, entre soluços.
Ela viu seu cabelo endurecer e ficar branco. Lily supôs ser gelo, mas era quente demais para isso.
— Me ajude...
Ela então soube o que era. E soube bem. Cera.
Seus pais não olhavam para ela, apenas para o piano. Ester a encarava, assustada, cutucando a mãe.
— Mamãe. A Lily. Mamãe. Ela está assustada. Mamãe.
A melodia parou, mesmo vendo Lily, eles nem se importaram.
— Mamãe.
— Oi, Ester?
— A Lily. Ela ficou lá fora. Vamos ajudar ela!
Sabrina olhou confusa para Ester.
— Que Lily?
Comentários
0Participe da conversa no Clã
Para deixar seu comentário e interagir com nossos autores e leitores, você precisa estar conectado à sua conta.
Seja o primeiro a deixar um comentário sobre esta história.