Lágrimas

Lágrimas

Por em 7 de fevereiro de 2018

Rios de sangue revestiam o velho e desgastado assoalho de madeira; rios, estes, que um dia já foram somente de lágrimas. Incontáveis. Lágrimas.

Algumas gotas, por vezes, acabavam por traspassar os vãos do antigo piso, deixando, desta maneira, uma mancha permanente no casebre. Uma mancha tanto física, quanto emocional.

Sob o falecido corpo de minha irmã ambos os rios se desabrochavam, o de lágrimas sobrepondo-se ao de sangue, evidentemente. Eu já não sabia mais o que fazer, já não sabia mais o que haveria de ocorrer, a incerteza apenas alastrou a calamidade, o caos que se formava dentro de mim.

Minha irmã não sabia mais o significado de amor, estava em depressão profunda e ora ou outra tinha crises de pânico. Seus olhos não hesitavam em marejar e sua voz estava falha de tanto grunhir. Ela estava morta por dentro, ela já deixara de amar, deixara de sentir. Suas lágrimas eram vazias.

O ser humano não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar. Eu só matei o corpo de minha irmã, porque ela em si já se encontrava ausente, era apenas uma carcaça ambulante.

Não sou assassino, apenas libertei minha irmã da solidão. Minha irmã…

Eu me encontrava sozinho, eu era sozinho. Exato, era, também deixei de ser. Promiscuidade não me preenche, há apenas um vazio agudo. Minha irmã. Talvez, só desta vez, eu deva acabar, afinal já estou acabado de qualquer forma. Nada acalma a alma. Minha. Alma.

Não sinto mais nada, nem amor pela minha irmã sequer…

Zacarias T.

 

 

*Nota: Base em Mark Twain.


Esta obra é de propriedade intelectual do Clã do Terror. É proibida sua reprodução total ou parcial de textos, fotos e ilustrações, por qualquer meio, sem prévia autorização.

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