Você me matou

By on 8 de janeiro de 2018

PARTE I

   A minha vida sempre foi normal, digo normal a partir das circunstâncias de qualquer pessoa, e ser normal varia muito de pessoa para pessoa, porém para a sociedade eu era um rapaz normal. Um dia toda essa normalidade acabou quando encontrei o meu irmão morto no porão de casa, foi uma cena que me chocou profundamente, eu corri ao encontro da minha mãe que estava dormindo, eu bati na porta dela desesperado e comecei a gritar que meu irmão estava caído no porão, eu corri de volta ao local onde meu irmão estava  e minha mãe veio em seguida calma e com o rosto relaxadamente perturbado.

Eu não notei uma lágrima escorrendo do rosto dela por causa dessa perda e brutalidade ali visíveis, eu não tinha nem como raciocinar com toda aquela pressão que me encontrava.
Na condição de mãe, ela fez todos os tramites legais como qualquer outra faria, já que eu não tinha pai, o meu pai havia falecido logo depois que meu irmão mais novo nasceu, infelizmente o mesmo que foi assassinado, ligamos para a polícia e a situação foi severamente investigada, afinal de contas não existe crime perfeito. Logo depois disso se passaram alguns dias e minha mãe organizou um enterro digno e fechado somente para a família e amigos próximos.

Notei que ao longo da cerimônia vi a minha mãe me olhando de longe, atenta, me observando, ela me passou até uma expressão macabra como se eu tivesse cometido o crime e que ela sabia de tudo.

Tudo bem, talvez fosse somente o clima pesado do momento que por ventura causou tal impressão.

 

PARTE II

   Se passou alguns anos após este estranho acontecimento, mas nada disso nunca saiu da minha mente.

Eu ficava no meu quarto sempre, eu me encontrava em um estado estável e desprezível, eu acredito que estava em algum tipo de estado sofisticado que a sociedade inventou e que chamam de “depressão”. Todo esse sentimento veio à tona após da morte do meu irmão mais novo, confesso que eu ainda não consigo esquecer aquele momento, ainda posso sentir a pressão que me envolvia similar a um abraço desconfortável.

A verdade é que aquele fato que aconteceu com a minha mente me causou profundo êxtase emocional, meu coração palpitava de ansiedade e naquela época eu estava gostando de toda aquela situação, como se fosse eu o real culpado por ter realizado um trabalho tão perverso que ocasionou a morte de um ente querido.

Eu acho que a causa da minha depressão é porque eu não quero aceitar o fato de ter sentido prazer naquilo, meu corpo me obriga a ir atrás de mais momento assim como aquele que fez parte do meu passado sombrio, o desejo que tenho é de sentir novamente um cadáver em minhas mãos, mas dessa vez eu quero ser o responsável e guardar todos os detalhes.

Eu fico aqui pensando “como um rapaz normal tem pensamentos tão cruéis e maliciosos”, não sou sociopata ou algum tipo de deficiente mental que mata por diversão, se for para eliminar uma vida será por causa da minha própria necessidade de me satisfazer, não há nada de errado nisso.

Meu corpo pede por adrenalina e eu vou conseguir atingir o cume desse desejo pavoroso, de hoje não passa, eu vou alimentar esse animal brutal que pede constantemente para ser livre e saciar esta sede de sangue que me consome.

Agora são 22 horas, eu começo a me preparar, cuidadosamente ando em direção ao quarto da minha mãe, um pouco preocupado, eu não quero que ela me veja sair a esta hora com certeza ela irá fazer perguntas bobas, entro no quarto dela e noto que ela está dormindo, ela novamente esqueceu a tv ligada, entro bem devagar dentro do quarto e desligo a tv.

São 22 horas e 10 minutos, estou aqui no meu quarto sentado na minha cama pensando nos próximos passos que tenho que dá para atingir o meu objetivo insano, tem que ser um crime perfeito “penso comigo mesmo”, eu continuo pensando e em alguns momentos dou algumas risadas tímidas e abafadas.

PARTE III

   Agora são 7 horas, eu desperto, curiosamente eu ainda estava sentado na cama.

Eu tento me lembrar do que aconteceu na noite passada, mas fico estarrecido e com muita raiva de mim mesmo, começo a gritar vários palavrões e quebrar alguns objetos do meu quarto. Por fim me acalmo e noto que tem algo diferente, sinto o meu coração mais leve e aquela sensação sanguinária se esvair por completo, talvez eu só precisasse dormir um pouco.

Eu retiro toda aquela roupa preta e grossa que me encontrava vestido e noto que tenho alguns arranhões feitos talvez por unhas, mas eu tenho certeza que eu não sair para lugar nenhum ontem, fiquei em casa a noite toda, falhei miseravelmente.

Desço as escadas e vou direto para a cozinha ver o que minha mãe preparou para o café da manhã.
Tem algo estranho hoje, toda manhã minha mãe está na cozinha preparando o café e ela é sempre pontual, eu não consigo acreditar, será que ela foi ao mercado ou ainda está dormindo?

Subo novamente as escadas e sigo em direção ao quarto da minha mãe, e enquanto subo as escadarias várias perguntas vão surgindo: será que ela está doente? Será que ela soube de alguma coisa? O que está acontecendo?

Chegando lá, noto que a porta está fechada, eu bato na porta chamando o seu nome, mas ela não responde ao meu chamado, então, decidi abrir suavemente a porta.

Ao abrir a porta vejo uma cena desastrosa e sinto uma sensação antiga que me tomou a muito tempo atrás. Lá estava minha mãe esticada na cama com cordas prendendo os seus quatro membros nua e coberta de sangue. Tinha um bilhete encima do seu tórax ensanguentado, eu trêmulo pego a cartilha macabra e leio o conteúdo escrito com o próprio sangue da vítima que dizia: “obrigado por tudo mãe”.

Eu caio de costa no chão sem acreditar naquela situação tentando entender tudo aquilo, o bilhete escrito com sangue, as minhas roupas arranhadas, parece que sou um suspeito em potencial, mas como eu fiz isso? Eu nunca mataria a minha mãe, o que eu sou? Não consigo me lembro de nada, começo a ter uma crise de risadas desesperadas e finalmente tudo vem à tona e eu entendo com clareza a situação agora, “A culpa é do monstro que vive dentro de mim”.

PARTE IV

   Algumas semanas se passaram após a trágica morte da minha mãe e aquela dúvida que me assolava constantemente, será que eu realmente sou o assassino da minha mãe? Perturbado em meio aos meus pensamentos acabo Tomando um susto quando ouço a campainha tocar, imediatamente levando do sofá e vou até a porta ver quem é, observo a silhueta da pessoa pelo olho mágico e o homem fala: chegou uma correspondência do correio, eu abro a porta pensativo “quem poderia estar me enviando uma carta? ” Recebo o material e passo a analisá-lo com cuidado, noto que o material está tinha informações que batiam com meu endereço e tomo um susto maior quando vejo quem foi a pessoa que tinha me enviado, esta pessoa foi a minha falecida mãe, perguntei ao carteiro “como isso era possível? Ela havia morrido a dias atrás, como eu estava recebendo uma correspondência dela? ”, então, o carteiro me informou que existe um sistema novo que entrega correspondências após o falecimento do cliente, é um meio seguro e eficaz capaz de evitar fraudes.

Eu aceito a correspondência e assino como recebido, o carteiro vai embora me desejando um bom dia, eu imediatamente começo a abrir a correspondência e lá dentro encontro um dvd e uma outra carta, uma carta vermelha, eu fico curioso e emocionado com tudo com aquilo, eu coloco este dvd no meu computador e dentro do disco tem um arquivo de vídeo chamado “eu sempre soube”, mas antes abro a carta vermelha que se encontrava dentro do envelope, quando eu leio a carta o meu coração começa a acelerar, na carta dizia: “Você me matou”, vou correndo verificar o vídeo que era referente a uma cópia de segurança da nossa antiga casa, casa esta onde meu irmão tinha sido brutalmente assassinado, mas era um vídeo gravado pela câmera 7 que se encontrava especificamente no porão, tenho então inúmeros questionamentos sobre a atitude da minha falecida mãe, “como existia uma câmera ali? Porque ela nunca me falou sobre isso?” abalado com o descaso de minha mãe decido abrir o material de um vez e é neste momento que todas as minhas dúvidas são respondidas, o conteúdo do vídeo mostrava o momento exato que eu assassinava o meu querido irmão.

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