Não tem SA-Í-DA

By on 22 de março de 2017

creepy

“ Onde estou? ”, eis a pergunta com a qual me questiono a todo momento. Estou aqui há algum tempo. Não tem saída. Estou preso, indefeso, inseguro e irrequieto. Neste local nada funciona, celulares ou quaisquer outros aparelhos eletrônicos.
É um casarão que aparenta estar abandonado. Não há mobílias ou sequer outra coisa que possa – ou não – preencher algum espaço, por mínimo que seja; creio que até a poeira esteja ausente. São no total dois andares mais um sótão e um porão.
No primeiro andar, encontra-se uma grande sala na qual se pode ver claramente uma porta enorme, provavelmente a de entrada, além de um extenso corredor que ao seu final bifurca-se em: Quartos 1 ao 4 e Escadas. Bem escondido, abaixo dos degraus das escadas, há uma pequena porta metálica que, quando se puxa a fim de a abrir, dissemina um pavoroso e agudo som de metal arranhando madeira. Os ouvidos se contorcem.
Pegando as escadas chega-se ao segundo andar onde há um enorme salão e duas portas nas laterais opostas às escadas. Ambas dão em dois quartinhos pequenos, os quais provavelmente já foram banheiros. No canto inferior direito da parede do grande salão tem uma pequena manivela que, quando é puxada, automaticamente revela, do outro lado da sala, uma longa escadaria de madeira. Esta leva aos aposentos superiores. Vazio. Um grande vazio. Apenas um resquício de luz adentra o quarto que, por sorte, conseguiu achar uma breve falha por entre as tábuas de madeira. O ar lá em cima é rarefeito.
Caso decida ir para de baixo das escadas, o porão, e abrir a pequena porta de metal barulhenta, ver-se-á uma corda que se funde com a escuridão e que te leva a um abismo interminável. Um poço sem fundo. Uma estrada sem fim. Uma vida sem morte…
A solidão me consome aqui dentro. Não há saída. Não tem saída. Não tem como sair. Como sairei? Estou preso. Definharei aqui até a eternidade. Não tem SA-Í-DA.
Minha mente anda desconexa. Maus agouros estão por vir. Neste quieto lugar nada posso fazer. Nada, senão pensar no acontecimento. O acontecimento.
“ Há dois dias atrás, mais ou menos, eu e meus irmãos fomos sequestrados, por motivos que até hoje desconheço. Cordas atavam nossas mãos e pés. Era uma grande casa de tijolos, moderna, pequena e chegava até a ser aconchegante – obvio se você não estivesse sequestrado…”
Parece que escutei algum barulho vindo do porão. Não quero averiguar, estou muito bem aqui. No entanto os barulhos só pioram, começam a me enlouquecer. Decido apenas checar, desta forma, convenço a mim mesmo de que não há nada lá, a não ser escuridão. Aproximo—me lentamente. Meus passos são suaves e não emitem ruídos. Cheguei. Vagarosamente abro a porta, um ruído propaga-se no ar. Assim que a menor das frestas aparece, a porta se escancara. Algo de lá de dentro puxa-me e faz-me cair… cheguei ao fundo do poço…
Acordo. Estou na grande sala principal, estou de frente para a porta. Será que foi um sonho? Pouco me importa. Flashes do acontecimento reluzem diante de meus olhos.
“ Meus irmãos, muito inteligentes, aproveitaram a aspereza dos tijolos e cimento mal lixados e esfregaram as cordas. Não muito tempo depois, as cordas, que, por sinal, eram bem vagabundas, romperam-se…”
Uma imagem atrapalha o decorrer de meus pensamentos, que, pela minha visão periférica, sou capaz de percebe-la. É uma figura branca cujos olhos são negros, parece flutuar, porém não tenho certeza. Estou enlouquecendo nesta maldita casa!
Vejo sangue no chão. Sinto algo afiado traspassar meu abdômen. Estou expelindo sangue por todos os orifícios possíveis… um gosto amargo fica em minha boca… fecho os olhos.
Começo a tossir incessantemente, sinto um fel em minha boca, mas ao cuspir nada vem além de saliva. Minha barriga parece estar intacta. Que merda foi aquela? Estou começando a ficar realmente assustado. A minha mente é intensamente forçada… meus pensamentos se voltam àquela noite…
“ ‘ Rick, nós vamos procurar ajuda na Vila São José e ver se encontramos a Dona Márcia, por enquanto fique aqui e enrole o babaca do sequestrador… ‘ Foi isso que Simon me disse antes de sair correndo na companhia de Jonathas.
Eu estava confiante, nunca estivera tão confiante em minha vida. Alguns minutos após a saída de meus irmãos, o sequestrador aparece…”
Sinto algo perfurar minha cabeça. Algo grosso e rígido, mas não pontiagudo. Imensidões de sangue caem no chão. Meus olhos, lentamente, vão de encontro ao chão e no meu último momento de lucidez vejo… um cano…
Agora, eu estou em um lugar completamente escuro, um breu completo. Meus olhos não conseguem distinguir o preto do branco. A aflição do desconhecido possui meu corpo. Sinto-me enraivecido, insano…
“ ‘Onde tá teus irmãos, Moleque? ’ … ‘Anda! Me responde’… ‘ Se tu me contar, te liberto…’ Por um breve momento juro que pensei na possibilidade de abrir a boca, contudo não poderia ser um traíra. ‘ Vamos! Me conte! Desembucha! ’ Eu jamais trairia meus irmãos, por isso permaneci calado. Até que por puro prazer e ódio o desgraçado me cortou o braço. Foi um corte superficial, mas de qualquer maneira doía. Quando ele ameaçou a cortar meu pescoço eu gritei ‘ Na Vila Madalena! ‘ . Ele mandou seus capangas irem até lá, e, por infelicidade do destino, me parabenizou por ter contado. Pena que era mentira, em breve eu estaria morto…”
Uma voz começou a sussurrar em minha mente “ Rick, venha aqui…” me soava tão doce está linda voz… me trazia boas lembranças. Guia-me para longe da escuridão. O breu, onde eu estava, desaparece. Neste momento eu sou a cobra e a voz o hipnotizador. Um encantador de serpentes. Sigo a voz. Ela me leva até o grande salão do segundo andar. A voz, porém, parece vir do sótão. Puxo a manivela, a longa escadaria cai, só que, ao invés de cair do lado contrário do aposento, cai sobre meu pescoço… Cracc! Sinto um dos ossos de minha garganta perfurarem minha pele, assim fazendo-me agonizar mais rapidamente. Começo a me engasgar com o sangue, todavia não consigo expeli-lo. Meus pulmões se enchem de sangue, enquanto eu fico inutilmente tentando recuperar o fôlego. Um último suspiro escapa de minha boca.
Meus olhos se abrem num supetão. Estou em um dos quartos do primeiro andar e a parede esquerda está estranhamente ocupada com um retrato ovalado de meus irmãos…
“ O sequestrador agarrou-me pelos braços, arrastou-me e, em seguida, jogou-me no banco traseiro de seu carro, achei que não queria me matar na casa. Colocou um saco preto sob minha cabeça. Nada mais enxergava. Pelo jeito que o carro balançava tinha quase certeza de que não estava me levando para casa. Comecei a chorar por de baixo dos panos…”
Salto para trás ao ver um de meus irmãos sair do quadro e caminhar em minha direção. A tinta escorre pela sua pele. Seus olhos são puro ódio. Corro para a porta, mas ela está trancada, não importa o quanto eu a force, não quer abrir. Sinto uma mão em meu ombro. Não me viro, visto que o medo me consumira. Ouço: “Você é o culpado…” Meu rosto empalidece e o coração acelera, é possível escutar os ecos produzidos pelos meus batimentos, quando, de repente, nada mais escuto, para. Caio.
Sinto que voltei, entretanto não abro os olhos. Volto aos meus pensamentos.
“ ‘ Saia! ’ Essas palavras eram minha sentença de morte. Sai e fiquei em pé já fora do veículo. Desataram-me e escutei somente o barulho de borracha contra o asfalto. Retirei o saco preto da cabeça e olhei a minha volta, ainda um pouco desnorteado. Estava em casa…”
Finalmente tomo coragem e abro meus olhos. Estou em baixo das escadas ao lado da portinha. Olho por cima do meu ombro esquerdo e vejo Jonathas, meu irmão. Ele ri e enfia um de seus dedos em meu olho. Urro de dor. Concomitante com o dedo no olho, ele também insere um em meu ânus, já não bastasse a dor de um dedo ali, ele ainda por cima gira e com força. É uma dor estrondosa. Não satisfeito, grita “ Você é o próximo, maninho! ”. Ele retira os dedos e soca minha cara com ambas as mãos, fazendo-me chocar-se contra o cimento que compõe a escada, a parte inversa, inferior. Logo em seguida pega meu rosto e começa a bate-lo contra a escada repetida vezes, incansavelmente. Sangue é jorrado por todos os lados, a porta metálica adquiri uma coloração vermelha e arcos perfeitos de sangue são formados no chão. Até que, em dado momento, apago.
“Desisto”, penso comigo mesmo. Porém minhas lembranças não param de gritar em minha cabeça. Que inferno!
“ ‘ Rick! ’ Escutei uma voz dizer, era Dona Márcia. Ela me abraçou. Aos prantos, contou-me ‘ Rick, mataram seus irmãos. ’ Franzi o cenho e fiquei boquiaberto. Não conseguia entender a situação, eu mentira sobre a real localização deles. ‘ Eu disse para eles não irem até a Vila Madalena, implorei para que ficassem aqui em São José, mas eles insistiram tanto… eles queriam procurar mais ajuda. ‘ Dona Márcia respirou fundo, derrubou algumas lágrimas e continuou ‘ Acabaram de encontrar os corpos, ambos sem cabeça… ’ Eu havia entendido. Eles foram mortos, por minha culpa, mas também não era minha culpa. Era e não era. Comecei a chorar junto com Márcia…”
Estou no salão do segundo andar. Meus irmãos me encaram. Um no canto oposto ao do outro. De repente começam a vir em minha direção.
“ Minha mãe chegou à casa de Dona Márcia, também aos prantos. Algumas horas depois em um rápido movimento minha mãe puxou um canivete da bolsa e encravou-o em minha garganta. Sangue voava de minha boca. ‘ Por sua culpa, meus filhos prediletos estão mortos! Você, seu merdinha, merece o mesmo destino de seus irmãos. Traidor… ‘ ”
Os dois começam a me chutar na barriga. Caio sem forças. “ Vamos, me diga onde você está! “ Um dos dois grita. Minha mente se esclarece. Eu estou em casa. Essa casa, era a casa de meus sonhos…
Minha mente é vazia, porque eu falhei. Meu sonho tornou-se meu pesadelo. Minha punição foi o inferno, eis aqui que lhe apresento meu inferno, meu mundo, meu vazio. Não podia ir a lugar algum, portanto fiquei no vazio. Aqueles que me atormentam, são meus demônios internos. Estou eternamente preso aqui. A cadeia dos indesejados. Essa é minha tortura: Minha vida…

 


 Otávio Ω 


Ω Entre para nossa comunidade oficial: Ω

parceria

Siga-nos nas redes sociais:

Nosso perfil no Amino: Clã do Terror

Perfil no Gooogle+: Clã do Terror

Perfil no Instagram: Clã do Terror

Em nosso perfil no instagram, estamos postando fotos macabras retiradas da internet. entre e confira todas elas.

Perfil no Pinterest: Clã do Terror

Perfil no Tumblr: Clã do Terror

Comentários

Comentários



Gostou? Então Compartilhe o conhecimento :)